“Vivo no infinito; o momento não conta.
Vou lhe revelar um segredo:
creio já ter vivido uma vez.
Nesta vida também fui brasileiro
e me chamava João Guimarães Rosa”
Vou lhe revelar um segredo:
creio já ter vivido uma vez.
Nesta vida também fui brasileiro
e me chamava João Guimarães Rosa”
Este ano comemoramos 100 anos do nascimento de João Guimarães Rosa, um dos maiores expoentes da literatura mundial de todos os tempos. A morte de Guimarães Rosa impediu seus editores alemães, italianos e franceses de indicarem seu nome ao prêmio Nobel de literatura. Teria sido, com certeza, o primeiro Nobel brasileiro.
Grande aventureiro da palavra, Guimarães Rosa fez do rio, do sertão e dos animais instrumentos da transcendência humana. Em seu romance e contos, as circunstâncias, as paisagens e as cores se mesclam em configurações místicas e míticas que se abrem, generosas, a uma pletora infinita de sensações e interpretações. Os textos de Rosa parecem possuir diversas camadas, como palimpsestos, cujo acesso se dá pouco a pouco e apenas para aqueles dispostos a mergulhar neste profundo desconhecido. Há vários textos em cada texto de Guimarães Rosa.
“Um léxico só não é suficiente” dizia ele, e então partiu em busca dos sentidos escondidos em diversas línguas, como um pintor em busca de uma cor que apenas intui. Conhecia o chinês, o russo, o húngaro, falava alemão, inglês, francês, italiano, mas acima de tudo, conheceu e amou profundamente a língua portuguesa, “amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa”. Ao mesmo tempo em que inventava palavras, resgatava outras de modo a expandir a língua para um lado e outro. Queria ser chamado de reacionário da língua porque estava em busca de suas origens, onde ainda nas entranhas da alma.
Em sua alquimia particular, singular Guimarães Rosa, para além dos estados líquidos e sólidos, tentava trabalhar a língua também no estado gasoso. Rosa fez da lingua névoa, fumaça, neblina neste estado onde é mais fácil misturar-se e muito mais difícil aprisionar-se, “não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros”, e então condensou, destilou, fundiu tudo numa obra de densidade quase inimaginável.
Guimarães Rosa ainda está todo por se descobrir, a cada leitura e sempre. Todo brasileiro deveria conhecer Guimarães Rosa e reconhecer, na imensidão de sua obra, toda a grandeza possível que esta nação pode ter.


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